Abro minha carteira, vejo dois cartões de visita.
E penso em como encontramos as pessoas mais incríveis sem nos darmos conta disso.
Abro minha carteira, vejo dois cartões de visita.
E penso em como encontramos as pessoas mais incríveis sem nos darmos conta disso.
Cheguei na casa sem grandes ambições. Minha primeira visão, ao entrar, foi ela ao sair do banho, envolvida por uma toalha vermelha. Nossa amizade platônica de longa data permitiu que trocássemos um longo sorriso antes que ela corresse para se vestir em seus aposentos. Ah, sempre tão adulta. Apesar do único ano que separa nossos nascimentos, me sinto tão criança ao seu lado…
Outros tópicos ocupam meu pensamento enquanto ela não retorna. Não sabia ao certo se gostaria que nossa ligação permitisse que eu a acompanhasse em seu ato de trocar-se. Tinha dúvidas quanto a qualidade de meu autocontrole em tais circunstâncias.
Em pouco tempo, ela voltou radiante em um vestido doce e estampado, propositalmente largo exceto por um cinto marrom atado à cintura. Discretamente verde e laranja. Acompanhei-a enquanto se maquiava. Pediu minha ajuda para estudos enquanto escondia suas delicadas e levemente escuras olheiras. Mesmo que normalmente aborrecesse ser essa a única característica que a sociedade valorizava em mim, a simples ideia de tê-la próxima no ano seguinte já fez com que eu prometesse fazer o que estivesse ao meu alcance. Sua fronte, melancólica desde sempre, pareceu alegrar-se por alguns instantes.
Conversamos aleatoriamente. Eu prestava atenção em seus delicados e precisos movimentos ao pintar-se. Ela explicava graciosamente que achara suas curvas grosseiras para aquele vestidinho simplório. Eu contemplava.
Uma amiga dela chegou, roubando meu lugar junto à porta do banheiro. Fui para a sala com a esperança de encontrar algo para me ocupar.
Escutava uma conversa qualquer quando ela voltou. Eu, sentada no chão, vi-a surgir aos poucos. Seus pés, que eu imaginava suaves, estavam ocultos por altos sapatos de salto cinza-claros, quase prateados. O bico arredondado infantilizava a sensualidade da altura, esta que parecia ser a natural dela pela leveza de seus passos. O vestido que, ao contrário do que ela pensava, a deixava com inflexões extasiantes, permitia que o admirador visse suas lindas pernas até pouco acima dos joelhos. O ambiente escuro da sala, iluminado apenas por algumas luzes pontuais, deixava sua pele levemente morena com um quê de dourado.
Meu olhar nem conseguira chegar em sua cintura e a poesia que dela transbordava já ocupara toda a sala e entrava na cozinha. Enquanto admirava o casaco de couro azul que cobria seu busto discreto e seus braços torneados, sentia a música que saía dos poros dela inebriando meus ouvidos. Seu rosto, coberto por pouca tinta, estava misteriosamente belo e emoldurado por seus cabelos castanho-escuros presos em um coque displicente. Seus olhos imensos e negros, divididos por um nariz cigano que eu adorava, fitavam outra pessoa e permitiam que eu observasse sua boca vermelha, levemente grossa. Tinha vários brilhos nas orelhas, e como eles me enchiam de admiração…
A visão durou pouco. Logo, ela e a amiga saíram do cômodo com sabe-se lá que pretexto. Eu encontrava-me presa por sua poesia.
Quanto não acelerou meu coração quando, ao ir embora, vencida pelo cansaço, cruzei com ela novamente. Soltara os cabelos, estava em seu estado de máxima magnificência e plenitude. Os cachos largos, escuros e cheios emolduravam seu rosto, seus ombros, suas costas. Quantos fios volumosos, e como deviam ser macios e cheirosos!
Não sei se fiquei boquiaberta. Como minhas mãos gostariam de afagar aqueles cabelos, aquela pele macia e adulta. Minhas mãos sujas e infantis. Meus lábios, úmidos como as lágrimas que escorriam dentro de mim pela minha insignificância perante ela. Eu, em minhas roupas de menino, fixava meus trêmulos pensamentos nos elogios que recebera naquela hora em que fiquei na presença dela.
Confesso que, ao sair, achei um pouco da poesia dela espalhada pela calçada.
Seus olhos me fitavam diretamente. Eram olhos enormes, redondos, espertos. A íris castanha, marrom como a minha, contracenava harmoniosamente com os cílios longuíssimos. Creio que muitas moças já machucaram-se com a inveja desses cílios, perfeitos como só homens têm e só rímeis podem reproduzir.
A brancura plena daqueles lindos olhos contrastava com a pele morena, deixando-os ainda mais marcantes naquela face bondosa.
Via seus sorrisos pelos seus olhos. Os cantos externos dobravam-se e enrrugavam-se a tal ponto que as pálpebras, morenas como o rosto, piscavam mais vezes e mais rapidamente. Mesmo quando o sorriso que escondia boa parte daquelas retinas era irônico, o resultado era o mesmo. Fácil era para aqueles olhos dissimularem seus sentimentos, mas não para quem os contemplava atentamente.
Sob aquelas câmeras espertas e pensativas, sentia-me compreendida. Mesmo que não pudesse focá-los o tempo que desejava pela deselegância do ato. Confiava em seu julgamento com toda a minha alma, não sei se pela beleza dos olhos (e quem não se curva à magnificência do belo) ou por sua sapiência. Apenas me confortava e aninhava ser fitada por aquela fronte amiga.
E, no meio daquele temporal, o sol espiava por entre as nuvens, majestoso, zombando do caos que seu calor causava na cidade.
Eram castanhos, e terminavam ruivos. Era tudo o que eu conseguia ver quando o conheci. Cabelos longos, muito marrons na cabeça, clareando e acobreando conforme chegavam à cintura. Fios muito finos, alisados pelo peso, permitindo algumas ondas apenas no último terço. Nas proximidades da barba, era muito grosso, laranja escuro, formava cachos perfeitos e pequenos.
Não conseguia desviar os olhos daqueles cabelos. Eram perfeitos, como os que eu nunca tive e nunca terei. Mesmo não sendo volumosos, eram longos. Na verdade, a espessura dos fios era igual à dos meus, mas os em minha cabeça enrolam apenas, e não crescem. O cheiro de perfume se misturava ao de cabelo, aquele odor macio e quente, que, apesar de ser causado pelo suor, é limpo e chamativo. O que eu mais desejava era tocá-los, brincar com eles, penteá-los e sentir sua magnitude entre meus dedos.
Apenas depois de muita contemplação consegui ver a pele muito branca que surgia próxima à raiz dos fios. Vi também sobrancelhas escuras, não muito espessas, que davam muita expressão a olhos que praticamente declamavam poemas. A íris era de uma cor confusa, que não me vem à memória. Não era chamativa o suficiente para desviar minha atenção do que a fronte falava, sem emitir um som. E daqueles cabelos.
Qual foi meu delírio quando aqueles olhos me permitiram tocar nos fios multicolores. Minhas mãos malcuidadas se estenderam sedentas à procura da saciação do desejo. Quando finalmente senti aquela massa leve e macia, senti-me tão feliz quanto se tivesse ganhado uma boneca nova. Senti-me honrada e plena, pois sabia que aquela fronte branca e sagaz não aceitava quaisquer dedos em seus cabelos. Trancei os fios com o maior cuidado que pude, sentindo júibilo escoando pelos meus poros. Me sentia uma criança, penteando algo que desejaria ver todo dia, mas nunca conseguiria.
Após minutos, minutos que me pareceram anos, a trança chegou à ponta ruiva da cachoeira de fios. Estava maravilhada, procurando mostrar aos olhos, expressivos e mudos olhos, a minha gratidão. Gratidão e felicidades estas que perdurarão por um bom tempo em minha memória.
| — | Ain’t Got No, Hair |
A disputa entre as Parcas e a Fortuna é eterna: as três senhoras personificam o imutável destino dos homens, enquanto a volátil moça representa o acaso e a liberdade. Mesmo após as sociedades ocidentais distanciarem-se da mitologia grega, as pessoas não chegam a um consenso sobre a posse de seus futuros. Algumas arcam com a responsabilidade do livre-arbítrio. Outras entregam sua sorte a algo maior que as controla. Nem todos optam pela liberdade, e é a possibilidade de escolha entre os dois lados que escancara o quão livre é o ser humano.
Escolher entre um governo liberal ou autoritário. Escolher entre um colégio religioso ou um anárquico. Escolher entre seguir as regras ou descumpri-las. Todas essas opções mostram que o homem pode escolher quanta autonomia e quantos obstáculos para suas vontades quer ter. Jean-Paul Sartre, filósofo do século passado, afirmou que julgar estar sob um poder externo já é por si só uma decisão livre. Por conseguinte, temos em nós mesmos os caminhos para agir ou não agir. Somos autônomos.
A democracia moderna mostra exatamente a liberdade que os homens possuem mesmo sem ter conhecimento. Sendo um reflexo de seus adeptos, o governo do povo não pode oferecer autonomia plena. Afinal, não são todos os que querem conviver com ela. Na ausência de controle, uns roubam, outros matam. Desse modo, anárquicos e autoritaristas têm que compartilhar a mesma liberdade oferecida pelo Estado, que representa pessoas com sede de autonomia e outros que não fazem questão de alguma. O próprio povo faz com que a democracia seja consensual.
Não é possível ter mais liberdade do que ao poder escolher entre tê-la ou não. O homem moderno tem livre-arbítrio até ao dizer não o ter. A contemporaneidade é livre e goza de sua liberdade até mesmo ao decidir por não decidir.
| — | Gary Cherone to The Inside magazine, abot the comparisons between Dave Lee Roth and Sammy Hagar |
| — | Ignácio de Loyola Brandão |
Sobre um passei que fizemos há alguns dias pela avenida Paulista.
A chuva caía leve sobre o plástico. Era fria, mas me sentia quente. Os braços dele em torno dos meus ombros eram quentes. As gotas e seu sussurar suave se confundiam com a voz dele, misturando-se também aos sons de motores, buzinas e passos. Era noite, era frio, mas estava quente.
Os olhos dele contribuíam com a sensação de conforto. Aquele olhos que não eram claros ou escuros, eram límpidos, apesar de cinzentos, eram acolhedores, apersar de cinzentos.
Sintia-me flutuando, a chuva me tocava e não me molhada. Sentia-me irracional, mas não menos humana. Os brancos, os olhos, ele todo enchiam-me de emoções puras e felizes. Nem a agitada cidade noturna conseguia desviar minha atenção dos doces pingos de chuva e da terna voz.
A voz dele que me aquece.